A franquia Casa de Bolos, maior rede de franquias de bolos do Brasil, foi vendida. A AB Mauri Brasil, subsidiária da britânica Associated British Foods e dona de marcas como Fleischmann e Ovomaltine no país, anunciou nesta semana a assinatura de um acordo para adquirir 100% da empresa, fundada em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. O valor da transação não foi divulgado e o negócio ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
O anúncio marca um novo capítulo para um negócio que nasceu na mesa de uma família. Em pouco mais de 15 anos, a franquia Casa de Bolos cresceu de um pequeno ponto comercial para uma rede com mais de 600 lojas e faturamento na casa das centenas de milhões de reais.
O acordo de compra anunciado nesta semana
Pelos termos divulgados, a AB Mauri Brasil passa a deter a totalidade do capital da empresa de Ribeirão Preto. O valor permanece em sigilo. A revista Forbes estimou o negócio em torno de R$ 200 milhões, mas as companhias envolvidas não confirmaram cifras oficiais.
A compradora informou que, após a conclusão da transação, a franquia Casa de Bolos continuará operando de forma independente, como uma unidade de negócios dentro da AB Mauri Brasil. A marca, o posicionamento, o portfólio e o modelo de franquias serão mantidos, e os quatro filhos da fundadora seguem na liderança da operação.
A AB Mauri Brasil tem mais de 90 anos de história e atua com um portfólio que reúne as marcas Fleischmann, Mauri, Aromaferm e Sohovos, além de distribuir produtos como Ovomaltine e Twinings. A controladora, a Associated British Foods, registra receita anual da ordem de R$ 120 bilhões.
O que diz o Cade sobre a operação?
A operação que envolve a franquia Casa de Bolos ainda precisa passar pelo crivo do Cade, órgão responsável por avaliar concentrações de mercado no país. As empresas notificaram o conselho. A partir do protocolo, o caso passa a ser instruído pela Superintendência-Geral, que analisa os possíveis impactos concorrenciais antes de qualquer decisão.
Concluída a avaliação, o órgão pode aprovar a compra sem restrições, aprovar mediante condições ou encaminhar o processo ao Tribunal do Cade. Em procedimento sumário, o prazo é de até 30 dias. Já no rito ordinário, quando a análise é mais complexa, aplica-se o prazo legal de até 240 dias, prorrogável conforme a Lei nº 12.529/2011.
Por que a franquia Casa de Bolos atraiu a AB Mauri?

A aquisição da franquia Casa de Bolos tem uma lógica de cadeia produtiva. A AB Mauri já fornecia ingredientes para padarias, confeitarias e indústrias de panificação. Ou seja, a companhia já estava presente nos bastidores da produção dos bolos da rede. Com a compra, passa a controlar também a venda final ao consumidor, capturando valor em mais uma etapa do processo.
O que nos atraiu foi precisamente a autenticidade da marca e a solidez do modelo que a Casa de Bolos construiu ao longo dos anos, afirmou Danilo Nogueira, diretor-geral da AB Mauri Brasil, em comunicado.
O movimento acompanha uma mudança no setor de alimentação. Empresas antes concentradas na indústria e no fornecimento passaram a buscar marcas com conexão direta com o consumidor. Em um mercado pressionado por custos e pela disputa por distribuição, controlar canais próprios virou vantagem estratégica.
Os números da franquia Casa de Bolos em 2025

A franquia Casa de Bolos encerrou 2025 com faturamento de R$ 720 milhões, crescimento de 11,6% em relação ao ano anterior. A rede chegou ao fim do período com mais de 600 lojas, presentes em cerca de 250 cidades e 20 estados, além de uma unidade internacional em Lisboa, em Portugal.
A operação produz cerca de 60 mil bolos por dia. Em 2025, segundo a empresa, foi inaugurada em média uma nova loja a cada seis dias. Para 2026, a projeção da rede era alcançar 700 unidades e faturamento de R$ 800 milhões, com expansão voltada ao Nordeste, sobretudo aos estados do Ceará e da Paraíba.
A presença internacional ainda é pontual, mas estratégica. A loja de Lisboa, inaugurada em 2024, registra faturamento mensal em torno de 15 mil euros e funciona como vitrine para a expansão da franquia Casa de Bolos em outros países. O retorno do investimento para o franqueado, segundo a empresa, costuma ocorrer em cerca de 24 meses.
Por nove anos consecutivos, a marca figurou entre as 50 maiores franquias do Brasil no ranking da Associação Brasileira de Franchising (ABF). Desde 2018, recebe anualmente o Selo de Excelência em Franchising concedido pela entidade, considerada uma das principais referências de qualidade do setor de franquias no país.
Da mesa de café a mais de 600 lojas

A história da franquia Casa de Bolos começou em 2009, quando Sônia Ramos, conhecida como Vó Sônia, tinha 64 anos e um dos filhos havia sido demitido. O país ainda sentia os reflexos da crise financeira de 2008, e a ideia foi simples: vender os bolos caseiros que ela já preparava para a família, a fim de complementar a renda.
Antes dos bolos, Sônia já havia empreendido com um açougue e uma confecção de roupas, além de vender bolos para casamentos e festas de aniversário. Em 2010, a família alugou um ponto comercial no centro de Ribeirão Preto e abriu a primeira loja. A aceitação foi imediata, e ainda naquele ano a marca encerrou o exercício com cinco unidades em operação na região.
Os quatro filhos de Sônia, Rafael, Daniel, Eduardo e Fabrício, foram se integrando ao negócio. Em 2011, a família apostou no modelo de franquias, e a trajetória ganhou escala nacional. Aos 80 anos, Sônia já não atua na produção, mas segue à frente da criação e dos testes de receitas. Fui aprendendo no dia a dia, escutando muito, observando, errando e acertando, disse em entrevista à Exame.
Como funciona o modelo de franquia de bolos?
Um traço marcante da franquia Casa de Bolos é a ausência de uma fábrica central. Cada unidade produz os próprios bolos, seguindo as receitas originais da fundadora. Os franqueados e suas equipes são capacitados em um centro de treinamento da empresa, em Ribeirão Preto, que também abriga laboratório de testes de produtos e centro de distribuição.
O investimento inicial varia conforme o modelo de loja. Segundo a empresa, o aporte parte de cerca de R$ 138 mil para o formato de quiosque e chega a R$ 170 mil no modelo Míni, já incluindo taxa de franquia, implantação e maquinário. O cardápio reúne em torno de 100 opções, do tradicional bolo de fubá, primeiro sabor lançado e favorito da fundadora, ao de maçã com castanha, campeão de vendas da rede.
A padronização é rígida. A produção é descrita como artesanal, feita com frutas de verdade, sem massa pronta, ovo em pó, conservantes ou corantes. Essa exigência vale para todas as unidades. Fora do Brasil, a operação de Lisboa tem servido de laboratório para a rede entender o mercado internacional.
O que muda para quem é franqueado?
Para os atuais franqueados, a empresa garante que pouca coisa muda no curto prazo. Marca, modelo de franquias e gestão operacional serão mantidos após a conclusão da transação, assim como as receitas sem massa pronta, conservantes ou corantes. Os quatro fundadores permanecem na direção da franquia Casa de Bolos.
A principal diferença pode aparecer no suporte operacional. Como uma das maiores fornecedoras de ingredientes para panificação do país, a AB Mauri pode oferecer mais força na cadeia de abastecimento e melhores condições de escala. Aos 80 anos, Sônia Ramos segue testando produtos e mantendo contato com os funcionários. A empresa mudou de dono, mas a presença da fundadora, não.
O mercado de bolos caseiros no Brasil

A venda da franquia Casa de Bolos ocorre em um momento de amadurecimento do franchising brasileiro. Segundo a ABF, o setor faturou R$ 102,6 bilhões apenas no estado de São Paulo em 2025, alta de 10,7% sobre o ano anterior. O segmento de alimentação e food service respondeu por mais de R$ 20,4 bilhões desse total.
Dentro desse universo, o mercado de confeitaria movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano no país. Os bolos caseiros representam a maior fatia, com receitas estimadas em R$ 10 bilhões e crescimento anual entre 3,5% e 5%, de acordo com dados do setor.
No plano global, o mercado de bolos é avaliado em US$ 97,6 bilhões, cerca de R$ 510,4 bilhões, segundo estudo da The Business Research Company. A projeção é de que alcance US$ 127,3 bilhões, aproximadamente R$ 665,7 bilhões, em 2029.
Foi nesse cenário de expansão que a franquia Casa de Bolos chegou ao controle de uma multinacional de alimentos. A operação ainda aguarda o aval do Cade, mas já redesenha o mapa do setor de bolos caseiros no país. A empresa mudou de dono. A receita de Vó Sônia, por ora, permanece a mesma.



